Dra. Maria Teresa Flor de Lima

Especialista em Anestesiologia, possui Competências em Medicina da Dor desde 2004 pela Ordem dos Médicos após Pós-graduação na Faculdade de Medicina do Porto;

Fez uma Pós-Graduação e Mestrado de Cuidados Paliativos em 2006-2014 pela Faculdade de Medicina de Lisboa;

É Coordenadora do Conselho Científico da Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores (fundada em 2005), do Programa Regional de Controlo da Dor na RAA, desde 2009 a Consultora até 2020. Representante na Pain Alliance Europe;

Membro convidado do Interest Group “European Patients’ Rights & Cross-Border Healthcare”, Parlamento Europeu (2015-2018);

Presidente da Comissão Técnica da Associação Alzheimer Açores, ALZA;

AS CONQUISTAS PARA OS DOENTES COM DOR CRÓNICA

Setembro é o mês internacional da sensibilização para a Dor

Nos últimos anos, houve, a nível internacional, importantes decisões para melhorar o tratamento das pessoas com Dor e a sua Qualidade de Vida.

Pretendo informar sobre aspetos relevantes destas determinações, de certo modo, orientadas pela Internacional Association for the Study of Pain, IASP, Associação Internacional para o Estudo da Dor, associação científica que, desde 1974, se tem dedicado ao Estudo da Dor e reúne cientistas, clínicos, prestadores de serviços de saúde e decisores políticos para estimular o alívio da Dor em todo o mundo. Juntamente com outras organizações, emana orientações técnicas que têm sido atualizadas e baseadas em evidência científica e na evolução do conhecimento sobre a problemática da Dor, para os doentes, famílias, cuidadores e sociedade em geral. Tem havido uma preocupação muito grande em apoiar os países em desenvolvimento.

A codificação da Dor como doença já foi publicada (www.iasp-pain.org) pela Organização Mundial de Saúde, OMS, na Classificação Internacional de Doenças ICD 11, de 2018. Obteve-se, assim, uma uniformização das síndromes dolorosas, levando a uma melhor programação de regras e orientações, estudos científicos mais relevantes e uma melhoria significativa na divulgação e formação dos profissionais de saúde.

Foram definidos os seguintes grupos:

Dor Cónica Primária
Dor Crónica relacionada com Cancro
Dor Crónica Pós-cirúrgica ou Pós-traumática
Dor Neuropática
Dor Oro-facial e Cefaleia Crónica
Dor Crónica Visceral
Dor Crónica musculo esquelética

A nível da Europa, a European Pain Federation, EFIC, Federação Europeia de Dor engloba todas as Associações Científicas dos países europeus, luta pelo estudo e controlo da Dor bem como a redução do Impacto Social da Dor, o que levou à criação da Plataforma Societal Impact of Pain, SIP que já está a apoiar plataformas nacionais em vários países, entre os quais Portugal e que envolve 11 Associações de Doentes e a Associação Portuguesa para o Estudo da Dor, APED.

A plataforma SIP é uma parceria com várias partes interessadas liderada pela EFIC e pela Pain Alliance Europe, PAE e visa aumentar a consciencialização sobre a Dor e mudar as políticas da Dor. A plataforma oferece oportunidades de discussão para profissionais de saúde, associações cívicas e de doentes, políticos, provedores de seguros de saúde, representantes de autoridades de saúde, reguladores e detentores de orçamentos.

Em agosto de 2020, foi publicada uma definição atualizada da Definição de Dor.

Pela primeira vez, desde 1979, a IASP introduziu uma definição revista, resultado de um processo de dois anos de um consenso multinacional e multidisciplinar, com a contribuição de todas as partes interessadas em potencial, incluindo pessoas com Dor e seus cuidadores. A definição e as notas anexadas pretenderam transmitir melhor a complexidade da Dor, de modo a uma melhor avaliação e tratamento das pessoas com Dor.
Dor é:

Uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a, ou semelhante à associada a dano tecidual real ou potencial”, e é ampliada pela adição de seis notas principais e pela etimologia da palavra Dor para um contexto muito valioso no suporte da definição:

  • A Dor é sempre uma experiência pessoal que é influenciada em vários graus por fatores biológicos, psicológicos e sociais;
  • Dor e nociceção são fenómenos diferentes. A Dor não pode ser inferida apenas a partir da atividade nos neurónios sensoriais;
  • Através de suas experiências de vida, as pessoas aprendem o conceito de Dor;
  • O relato de uma pessoa de uma experiência como Dor deve ser respeitado;
  • Embora a Dor, geralmente, tenha um papel adaptativo, ela pode ter efeitos adversos na função e no bem-estar social e psicológico.
  • A descrição verbal é apenas um dos vários comportamentos para expressar Dor; a incapacidade de se comunicar não nega a possibilidade de um ser humano sentir Dor.

A importância desta definição vem ajustar-se aos conceitos divulgados nos últimos anos:

  • A pessoa é importante no contexto de Dor, pois refere a sua Dor de forma individual, deve ser acreditada e permite uma melhor avaliação e orientação;
  • A Dor tem um significativo impacto na vida da pessoa e família e isso deve sempre ser considerado;
  • A necessidade da multidisciplinaridade na avaliação e no tratamento da Dor.

2020 é o Ano Global de Prevenção da Dor e são divulgadas estratégias de prevenção da Dor a investigadores, profissionais, doentes.

Pretende-se:

  1. Proteger contra o aparecimento da Dor;
  2. Impedir que a Dor se torne crónica ou recorrente;
  3. Minimizar as consequências e o impacto social da Dor Crónica.

Têm sido muitas as atividades desenvolvidas, quer por organizações, quer por governos, destinadas à sensibilização para a necessidade de melhorar a Qualidade de Vida das pessoas com Dor.

Setembro foi o mês escolhido para divulgar esta problemática. Esta campanha, à qual aderiram as organizações europeias, foi instituída em 2001 pela Sociedade Americana de Dor Crónica, a que se juntaram dezenas de parceiros em todo o mundo.

Em Portugal, um estudo recente (www.dor.com.pt) teve como resultados valores que devem fazer pensar no problema: 37% da população adulta portuguesa sofre de Dor Crónica; esta é a segunda doença mais prevalente em Portugal; 14% dos portugueses têm Dor Crónica recorrente com intensidade moderada ou intensa (que obrigatoriamente requer tratamento); 4610 milhões de euros é o custo anual da Dor Crónica (2.7% do PIB nacional).

Segundo publicações recentes (Pain161, n.º 8), a pandemia em curso é um potencial para aumento e agravamento dos doentes com Dor Crónica, não só pela infeção, mas pelos efeitos do stress causado pelos fatores psicossociais como a ansiedade, medos, isolamento, incerteza, diminuição da atividade física, do ritmo de sono e pelos fatores económicos.

As Associações de Doentes com Dor Crónica têm um papel importante em fazer ouvir a voz dos doentes, cuidadores e famílias.

Setembro de 2020